domingo, 20 de dezembro de 2009

Natal

Cautelosos e bastante envergonhados. No início, não foi fácil deixá-los à vontade. As mãos não obedeciam, o pensamento não cooperava, tudo parecia fora de lugar. De lugar e de tempo. Cinquenta anos ou mais não é momento de começos, de trajetórias cheias de letras inexpressivas, de símbolos sem significado, de signos ocos.

Lápis e cadernos cheios de linhas eram ameaçadores e tudo parecia sem nexo, sem elo, sem compaixão. Cada um deles percorreu melhor um atalho que o outro: ela preferia desenhar as letras e o fazia com capricho. Encorpadamente. Ele dava-se melhor com a leitura e saboreava os primeiros passos da identificação dos nomes das coisas. Sonoramente. Um completava o que o outro não sabia bem, mas ela teria que juntar os pedaços das palavras, palavras gordas, curvilíneas; aliás, adorava os contornos, o desenho espirituoso daquele mistério de traçados. Ele teria que domesticar os dedos acostumados a enxadas e a plantações, ao trato cotidiano de bois e de bezerros; adorava ouvir o som das palavras que estavam ali, prontas para serem decodificadas.

Foi uma luta de ano inteiro. Luta briosa de enfrentamentos e de pasmos. A cada página da cartilha, um novo sentido para a vida retirada do fundo do baú, já sem a poeira do desconhecimento.

Neste tempo de Natal, aqueles signos ocos estão preenchidos de luz e de melodias afinadas com uma era de nascimentos. Por isso, a ceia deste ano terá um sabor muito mais aprazível: ele lerá para ela o nome do panetone que comprarão no supermercado e ela fará o pernil seguindo uma receita copiada com sua letra cheia de redondezas. Os filhos virão com os netos e a casa estará enfeitada com os doces saberes de quem teve coragem para principiar, mesmo que aos cinquenta e tantos anos. De A a Z, plenamente.


(Foto: mhtml:mid://00000167/!http://dezmaos.files.wordpress.com/2008/11/mao-escrevendo.jpg)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Ternura


Não mais que vinte e cinco anos as três deveriam ter. Eram parecidas, apesar de os estilos serem diferentes: uma delas tinha um cabelo bem preto e bem curto, meio espetado; usava shorts e uma bota preta. A outra era loira, de rabo de cavalo e vestido estampado de florezinhas miúdas. A terceira tinha um cabelo encaracolado, semi preso com várias fivelinhas, e usava um jeans cotidiano. O trânsito tinha parado, eu não saía do lugar nem aguentava mais ouvir sobre as consequências das inundações; foi quando elas surgiram: as duas primeiras saíram da Fnac morrendo de rir, sem nenhuma sacola de compras, e pararam ao meu lado, esperando para atravessar; nisso viram a terceira amiga do outro lado da rua e esperaram. Vários cachos passaram por mim correndo e, quando alcançaram a bota e as florezinhas, abraçaram-nas com uma alegria tão grande, que eu fiquei torcendo para nada se movimentar. Foi um abraço triplo, desinteressado, espontâneo. Olhando para elas, fiquei pensando que, neste mundo de consumismo cheio de correria, apenas a beleza merece confiança; a beleza e a ternura das pessoas que nasceram para serem amadas.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Inveja


(foto: Robson Ventura/Folha imagem. Folha de São Paulo, 15/12/09)

Primeira folha. Apareceu na primeira folha do jornal, sabe lá o que é isso? Todos os meninos do Jardim Romano estão se matando de inveja; ficam mais tempo zanzando ali na rua alagada para ver se algum fotógrafo não os acha, procurando não respirar muito por causa do cheiro. Todo mundo tem histórias pra contar, mas o Luís é que teve sorte, foi o único. Só porque ele segurou aquela cobrona imensa e disse que muitas têm sido encontradas no meio das águas fedorentas; disse que até na casa dele tinha aparecido uma, não acreditamos nem um pouco. É certo que não dá mesmo para viver ali, pois tem uma aguaceira que não seca naquele solo pantanoso; mas que está divertido ver helicópteros passando pelo céu, isso está. O duro é que muita gente anda vomitando, tendo diarréia, e o único médico lá do posto não está dando conta. Ouvi dizer que o prefeito pretende tirar as famílias da várzea do Tietê mais cedo; antes a promessa era para 2012 e agora ele disse que vai ser no ano que vem. Será? Espero que o pessoal aguente firme e não morra até lá. Agora, uma coisa é certa: vou ficar bem amigo do Luís, já que ele ficou famoso, pois se ele for convidado para jogar em algum time de futebol, mesmo que seja de uma segundona, ele sabe que eu sou craque e me leva junto!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Domingo

Caía com nobreza indefinida uma chuva mansa e macia, encharcando aquela mesmice de sabores e cores. Longe de todas as ansiosas necessidades natalinas de riscar nomes das listas após pacotes emoldurados por laços e cartõezinhos tantos, havia ali uma quietude enigmática. Amanhecia, e até a manteiga sonolenta contribuía para que os ovos mexidos que ele nos preparava tivessem aquele gosto de índole ébria, amarela. Aos poucos as conversas foram arquitetando-se e tingindo o ar com proveito nevoento, pois os assuntos pairavam com seus suspiros turvos, fazendo-nos refletir até sobre o tombamento do sotaque dos habitantes do bairro paulistano da Mooca, sobre o vestibular para um curso de Latim e sobre o descabido contrabando de tuiuius do Pantanal. A chuva lá fora continuava mansa, mas já nos sentíamos leves e limpos, prontos para figurar na pintura ousada daquela manhã de dezembro úmida, verde, cheia de silêncio obsequioso.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Brinde

Parecia ter fugido de um quadro de Botero. Andava circularmente pisando o asfalto molhado e pensava bobices, pois até seu bocejo era um bocado risonho. Roliça, mais que roliça, chamou nossa atenção, mas não se deu conta disso. Estávamos na cozinha preparando o café quando vimos pela janela sua figura boleada e bojuda dando passos curtos com aqueles pés quase sumidos nos buracos burgueses da rua nada buliçosa àquela hora da manhã. O aroma do café distraiu-nos e a perdemos no meio de nossa conversa cheia de bocados. Vontade de dizer a ela que nosso dia foi batizado de beleza com o bailarismo de seu sorriso gordo. Vontade de lhe mandar um montão de beijos!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Rede



Tamanha. A solidão severa transportava-a novamente a um casulo sintomático, na largueza daquela varanda cheia de vasos, onde as abelhas faziam as florezinhas lilases balançarem ao contato de suas doces asas transparentes. Estava apenas recostada na rede de milhares de fios indígenas, naquela mudeza frequente que não espantou o pedido de rodo e de vassoura e de sal. Era o que faltava. E, além disso, aquelas iscas para espantar baratas, pois o calorão fazia-as aparecer à noite, quando o silêncio não as impedia de correr ávidas, destruindo a limpeza de dias e dias de trabalho. Sim, eu trago. Mas precisa trazer também o rodo e a vassoura. E o sal. Trago, trago tudo, e balançava o tornozelo diligente, fazendo a rede ir e vir, numa espécie de ensaio mesurado. Rodo grande para puxar a água da chuva que tem insistido em ficar parada, muita água quase toda tarde; se não for rapada cria limo na junção das pedras do ladrilho branco, onde o pé às vezes roça, quase sentindo o frescor daquela água que tem ficado ali no piso lodoso porque falta um rodo grande e uma vassoura para esfregar e esfregar bem esfregado. Sentia-se passando por um simulacro de rolagem macarrônica em que revia não só a chuvarada antiga cheia de raios, que arrancara do chão os pinheiros gordos perto da caixa d’água, mas também a ternura da cadela que chegara com o beija-flor amarelo amarelo no focinho, sem um único arranhão. E os fios da rede de textura aconchegante faziam-na ir e vir cada vez mais alto num êxtase de tear estremecido, como se eles próprios participassem daquele enredo lastimoso abraçando mais e fazendo o balanço invadir o espaço onde se podia enxergar o canto macio dos outros pássaros todos e as buzinas dos carros lá longe na estrada de asfalto quente quente. Mas também faltava sal, e a rede foi parando pouco a pouco, e o pé sentiu o chão branco seco sem chuva sem nada e uma friagem cansada cobriu seu rosto de olhos semiabertos cheios de solidão. Tamanha.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Toada

A despedida foi como das outras vezes: olhos inchados, mãos cheias de saudade antes mesmo de partirem. O voo estava atrasado, afinal caía um dilúvio, e os últimos dez minutos tiveram aquele gosto casto de eternidade. Cada um seguiu seu rumo não só com a promessa de cartas cotidianas, dessas que agora existem o tempo todo nas pontas dos dedos, mas também com o compromisso de uma surpresa grandiosa, após aqueles que seriam os seis mais longos meses de suas vidas. E como as coisas sonhadas só têm o lado de cá, um pensou no outro com paciência, amou o sonho do outro, o perfume do outro, o calor do outro, pois assim eram eles, nem parecia que de fato eram daqui (ou parecia?). Novamente o voo atrasou, afinal lá tinha havido uma nevasca, e os primeiros dez minutos do reencontro tiveram aquele sabor ácido de coisa desafinada: ele voltara trinta quilos mais magro, menos intelectualizado, mas preocupadíssimo com seu índice de massa corpórea; ela tingira o cabelo de ruivo, trocara o jeans pelo salto alto e concluíra o primeiro semestre do curso de Mestrado. E porque as coisas reais só têm o lado de lá, a despedida foi bem diferente: os olhos ficaram foscos e as mãos, cheias de alívio, antes mesmo de acenarem meio constrangidas, com aquele gosto lúbrico daquilo que é efêmero, provisório.

Ouvindo meus botões

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