sexta-feira, 11 de maio de 2012

Diário



Ah, hoje o papai me trouxe de carro novo para a casa da vó Maria! Tinha aquele cheirinho de banco nunca usado, sabe? É, eu já consigo reconhecer muitos cheiros e aquele era novato, como criança que vai pela primeira vez na escola e não sabe o que fazer. Apesar de eu estar dormindo, percebi por uns buraquinhos dos cílios que a vó Maria me achou uma gata com aquela roupa de calça branca e casaquinho preto que a mamãe me comprou, mas a roupa é um charme mesmo! Fiquei dormindo mais um pouco só até a vovó guardar minha sopa na geladeira e depois já abri o olhão: é que eu estava com saudade, né? Falei bom dia pra todo mundo e saí passeando com a vó Maria pela casa. Na varanda, amassei com força algumas folhas e quase arranquei uma jabuticaba preta da árvore. A Marina disse que não era preta, que era azul e que ainda não estava muito madura. Na hora, concordei, mas continuo achando que a jabuticaba era preta sim.  Ainda na varanda, vi as pessoas chegando no trabalho de malinha com rodinhas: tenho certeza que os adultos continuam brincando, mesmo que finjam que não gostam disso; brincar não é só coisa de criança bebê não. Então teve sessão “conversa de bichos” (a vovó disse que de todos, eu prefiro o glu glu do peru) e o rola rola no tapete oceano junto com a Irene, a boneca que combinava com minha roupa de hoje: ela tem cabelo bem preto, vestido branco de borboletinhas pretas e meia calça listrada de preto e branco. Ela não tinha nome até hoje e parece Irene, então ficou. Depois já fomos para a cozinha preparar o suco, mas a vovó é meio lenta para encher minha mamadeira de laranja lima, acho que é porque ela lava bem lavadinho aquelas laranjas orgânicas meio feiosas, até elas ficarem limpíssimas para descascar e espremer, acho que é isso mesmo. Enfim, tomei 120ml rápido e ouvi o interfone, mas ainda não era hora da mamãe chegar não. Não mesmo: a bisa que veio para me ver, querendo conversar e conversar. Falei uns minutinhos, mas acabei dormindo e a vovó me pôs no berço bem gostoso, debaixo das cobertas. Acordei só um pouco antes do outro barulho de interfone. Dessa vez era a mamãe, que alegria! É sempre assim: primeiro eu e depois o almoço de todo mundo. Hoje a titia, que estava viajando, veio almoçar também. Sabe como? Com uma roupa preta e branca, para combinar com a minha. Só faltou o titio: tenho certeza que ele também está morrendo de saudade de mim!
Beijo da Juju

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Ninhos



         A cerejeira era tão linda, mas tão linda, que o casal de beija-flores escolheu o galho mais florido para acomodar o ninho, ninho pequeno de palha ninho de três ovos bem botados.

         A menina olhava os ovos todo dia pela janela enorme que a cerejeira enchia de flor muita flor. Olhava os três ovos brancos brancos enrolando no dedo os cabelos cheios de cachos a menina moça única filha daquele outro ninho de tijolo e de janela enorme que dava para a cerejeira.

         Certo dia as cascas se partiram do primeiro do segundo e do terceiro ovo e encheram de alegria os beija-flores que se revezavam e traziam minhocas suculentas e pedaços de alimentos engolidos por aqueles bicos de beija-flor bebê famintos de piados fortes cada vez mais fortes.

         A menina crescida já moça olhava os beija-flores filhotes todo dia pela janela enorme que a cerejeira enchia de flor muita flor e contava o enredo dos piados contava bonito, cantarolando e enchendo de melancolia o homem e a mulher muito sabedores de que mais dia menos dia a moça de cabelo enrolado não estaria mais ali para olhar pela janela enorme que dava para a cerejeira.

         Numa tarde, beija-flor mãe e beija-flor pai se encontraram no galho florido mais bonito da cerejeira: os filhotes aprenderam que o mundo se abraça com asas e voaram alto, o primeiro, o segundo e o terceiro, empurrando até algumas florezinhas que caíram no jardim. Caíram bem embaixo da janela enorme onde a mãe e o pai da menina de cabelo encaracolado debruçaram, olhando as florezinhas no chão, as mesmas que estavam lá quando a moça filha única de cabelo encaracolado saiu toda de branco, pois ela aprendeu que o mundo se abraça com coragem de partir. A saudade fez o vazio alargar-se e doer de frio e não deixou nem se ouvirem mais piados nem meninas cantarolando nem nada.

         A cerejeira continua lá e os beija-flores de vez em quando surgem com uma esperança efêmera como as flores da cerejeira. Eles olham para a janela enorme e percebem que ela ganhou uma rede e que um garotinho bebê e uma menininha criança de cabelos encaracolados aparecem diariamente por ali para ver a cerejeira linda, mas tão linda que eles não entendem por que num dos galhos dela, o mais florido de todos, há um ninho de beija-flor vazio bem vazio.


 (imagem: http://www.google.com.br)

segunda-feira, 16 de abril de 2012


                Só meu avô Pedro me entende, acho que porque também me chamo Pedro. Ele não ouve muito bem agora e só vive de cama porque não aguenta mais ficar em pé, mas para que eu não precise falar aos berros para podermos conversar, ele escreve na minha lousinha, aquela branca que é fácil de apagar.

                Foi assim que pensamos no papagaio Zé, que parece bobo porque fica sempre repetindo a mesma coisa, mas ele é esperto que só vendo.


                Fiquei a tarde toda procurando um pedaço de papel mais duro onde eu poderia colocar o aviso com letras de forma bem grandonas. Adoro escrever com letra de forma, apesar de a professora insistir numa letra cursiva redonda igual a de menina, que chato! Pois bem, em vez de papel duro, achei um pedaço de madeira já bem cortada, que sobrou da reforma do chão lá de casa e levei para o vovô ver. Ele aprovou e até me ajudou um pouquinho, porque eu escrevi PAPAGAIO com um PA apenas e daquele jeito não iria dar certo.


                Depois achei um prego grande e o vovô me ensinou a segurar para eu não martelar a mão e lá fui eu. Preguei direitinho na porta nova, que mamãe tinha acabado de mandar pintar de branco bem branco. E parei de ter medo.


                Quando o papai chegou, foi voando na cozinha falar com a mamãe e os dois entraram com cara furiosa no meu quarto, sem nem mesmo bater na porta, como havíamos combinado. Eu estava calmamente brincando de Lego com o Picolé e levei um baita susto, um susto mais que verdadeiro.


                Expliquei que isso espantaria os ladrões que estavam entrando nas casas ali por perto e eles me tiraram o Lego e me deixaram de castigo; eu não poderia nem mesmo conversar com o vovô. Então não tive vontade de expor minha tática fabulosa, não tive não; além do vovô, só o Picolé está sabendo de tudo, ele que também ficou proibido de entrar no meu quarto “até segunda ordem”, como meu pai gosta de dizer, apesar de eu não entender direito o que significa isso (estou anotando algumas coisas na lousa para perguntar pro vovô).                

               
                Agora só espero que o ladrão venha hoje, pois o papai e a mamãe foram trabalhar e ainda não tiraram o aviso da porta: o ladrão vai chegar e vai ler o CUIDADO COM O PAPAGAIO escrito com uma letra de forma mais que caprichada, vai entrar sem ligar para o aviso, vai roubar o computador, os relógios da coleção do papai, vai se dirigir à cozinha para pegar o dinheiro que a mamãe deixou para a Zilmara gastar na feira e vai dar de cara com o Zé. Então o Zé vai gritar PEGA, PICOLÉ e o Picolé vai aparecer com uma cara mais que horrorosa toda suja de baba e o ladrão vai sair correndo deixando tudo pelo caminho porque ele não pensa em mais nada, a não ser em pegar o que não é dele na casa dos outros. Gente grande não entende nada mesmo. A não ser meu vovô Pedro, claro. E o Picolé que não é gente, mas é sabido que só vendo.           


(Imagem: http://2.bp.blogspot.com/_S3vX2Osw0KU/TP9-Tg47QnI/AAAAAAAAAB8/CIulz17G0e8/s1600/papagaio_021.jpg)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Cinderela


                Considerava-me superior a qualquer mocassim, tênis, bota, scarpin, sandália, galocha, louboutin de solado vermelho, mas minha história, apesar de tão propagada por anos a fio, só agora registro aqui. Já não é sem tempo.
                Sou da era das fadas, ou melhor, das abóboras com mania de fada e de varinhas de condão. Vivia sossegado, cheio de brilho, acreditando piamente que cristal não é feito para revestimento, invólucro ou coisa assim. Até o dia quando a fada de uma das morangas do quintal da dona Vera resolveu notar meu fulgor e teve uma ideiazinha brega como a de todas as fadinhas sem graça.
                Tudo começou quando a filha de dona Vera nasceu. Era um bebê tão rechonchudo, que não havia quem não gostasse de apertar a dobrinha da perna, a bochecha, a mãozinha roliça. A vizinhança toda só falava da redondice de Zizi, comparando-a com Alice, sua priminha magricela sem furinhos na mão, de tão franzina. Zizi crescia gulosa e adorava tudo rotundo como ela: brigadeiros, hambúrgueres, pizzas, empadinhas, bolos de chocolate, ovos de Páscoa. Cada dia ficava mais gordinha. Um de seus passatempos prediletos era ouvir dona Vera contando-lhe histórias de fadas e isso lhe dava tanta ansiedade, que acompanhava os enredos saboreando balas de goma coloridas, bem cobertinhas de açúcar cristal.
                Tudo era cor-de-rosa para Zizi.  Até o momento quando eu fui obrigado a aparecer. É que tinha chegado a hora de Zizi arranjar um namorado e o jeito bolachudo da menina começou a afastar todos os meninos da escola, do clube, do curso de inglês, do Facebook. Por mais que Zizi usasse photoshop e fosse a jovenzinha mais simpática do mundo, espantava qualquer um quando aparecia ao vivo numa festa ou numa balada. Mas Zizi tinha experiência de histórias de fadas e procurou uma moranga do quintal para morrer de chorar enquanto, com canudinho, devorava latinhas de leite moça. A moranga ouviu mil vezes as queixas de Zizi, seus sonhos de arranjar um príncipe encantado e, acreditando na sua condição de fada-moranga, incluiu-me na sua lista predileta de transformações.
                Temi pela minha sorte, mas sapatinhos de cristal são tão frágeis, que fica sem sentido aparecerem nas histórias discutindo os imprescindíveis finais felizes delas. Pois bem, a fada-abóbora elaborou um plano cheio de truques com Zizi e lhe garantiu: no casamento de Alice, a prima magérrima, sua sorte mudaria; a única coisa que precisaria fazer era entrar pelo corredor principal da igreja com a almofadinha das alianças. Estaria com um vestido largo de tule para suas gordurinhas não ficarem salientes e calçaria um sapatinho de cristal mágico, que a faria planar, como se estivesse pisando em nuvens. Ou seja, ela teria que ME calçar!
                Quase morri de dor de tanto aperto. Os dedinhos redondíssimos de Zizi me asfixiavam e me faziam suar por todos os meus poros inexistentes, pois essa não é mesmo característica dos cristais. Mas sou corajoso e nunca gostei de deixar de cumprir metas até o fim, então aguentei firme e caminhei pelo corredor atapetado, onde havia milhares de pétalas perfumadas. Senti que minhas forças se iam acabando e tentei resistir e resistir. Porém, quando Zizi foi subir o primeiro degrauzinho do altar, escorreguei nas flores e senti metade de um alívio do tamanho do mundo, quando voei por cima da noiva, do noivo, do padre e fui cair na mão do padroeiro da igreja.
                Zizi não se conformou com o erro de planejamento da fada-abóbora e saiu correndo com um pé descalço, enquanto os músicos do coral tocavam uma música moderníssima chamada “Ai se eu te pego”, completamente atordoados.  A noiva desmaiou e o noivo, que nem parecia tão feliz de estar ali com aquela roupa preta e branca estilo pinguim, saiu correndo atrás de Zizi, tropeçando no outro pé de sapato de cristal jogado pelo meio do caminho. Ufa, até agora estou respirando TOTALMENTE aliviado! Dizem que o ex-noivo de sua prima anoréxica ainda não encontrou Zizi, pois a magia planadora não se perdeu mas, apesar de gordinha, ela deve estar correndo pelo mundo e emagrecendo pouco a pouco de tanto exercício. Por todos os lugares por onde Zizi passa, ouvi dizer que mais noivos desistem de casar e vão atrás da menina descalça e esguia, que um dia me calçou, os sapatinhos de cristal inventados por sua fada-abóbora sem graça nenhuma.

(imagem: http://www.google.com.br/imgres?q=sapatinhos+de+cristal)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Amanhã




Sabe aquele montão de livros esperando na estante? Todos comportados e ansiosos? Aparentemente sossegados na sua euforia numerada? Pois bem, isso não acontece com meu vizinho do prédio ao lado. Ele está sempre lá, na cadeira de palhinha, sentado como quem está à espera do fotógrafo, gato de raça ao lado e jarrinha de água no centro da mesinha redonda. Ele está sempre lá, com a brancura de seus cabelos brilhantes, rindo às vezes, pasmando-se, bebendo palavras gordas, seduzindo-se com a mania de poder que elas têm. Sinto inveja, invejona mesmo, no duro. Programo horários, sonho com eles, me preparo esbaforida e despenco no sofá com o livro escolhido. O tempo curto encolhe e me deixa na mão.  Amanhã.

Os personagens dele aparecem numa espécie de tirinha daquelas que se fazem com tesoura, mãos dadas, cheios de si. Caras atravessam o vazio entre ele e mim: alegres, céticas, asmáticas, choronas, sozinhas, caras de todos os jeitos aproximam-se com diálogos imagéticos, exploram minha curiosidade e saem correndo, dobrando-se umas sobre as outras sobre as outras. Amanhã.

Hoje havia um menino sentado em outra cadeira de palhinha. Ele nem alcançava o chão. Riu para o gato, mas não foi correspondido. Abriu então um livro cheio de cores e aos poucos foi levantando os pés para sentar sobre eles. Às vezes fazia uma pergunta e a resposta vinha cheia de gestos que ajudavam a esclarecer o que as palavras traduziam. Gestos com cabeleira branca e brilhante. O gato não se pronunciava e nem se dignava a se mexer. O menino bebia palavras gordas, seduzindo-se com a mania de poder que elas têm. O quadro merecia mesmo um fotógrafo. Dos bons. Esbaforida despenquei no sofá com o livro escolhido. As páginas ainda tinham aquele cheiro de papel que invade por dentro, exigindo certa reverência prazerosa. Mas o tempo curto encolheu. Amanhã.


(Imagem: http://www.google.com.br/imgres?q=bonecos+de+folha+de+jornal+recortados+com+tesoura&um=1&hl=pt-)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Apetites


Quando eu era eu sem saber disso, não havia um minuto sequer de descanso. Eu era eu, mas não era, e esse tornou-se um problema gigantesco. Problema, pois quando somos de fato, sabemos tudo, temos consciência de nós mesmos, semelhante a um narrador que conta sua história e conhece o jeito de as personagens viverem o que elas são e não são.

Vou explicar melhor: tudo aconteceu tão rápido, que não deu nem para saber quando quebrei a linha divisória de minha situação anterior e passei para esta de agora. Antes eu era, mas não percebia isso, pelo menos no início, bem no início. E tive um trabalhão para me dar conta de meu nariz. Não só do nariz, claro. Dizem que eu tinha uma vida tranquila, mas muito se enganam os que pensam assim; fui a-con-te-cen-do e percebendo que gostava de ficar com as mãos fechadas, abraçando um oco e me sentindo bem com essa aproximação comigo. Apreciava outras coisas também, muitas coisas, e a cada minuto tinha um pasmo diferente que dava vontade de gritar e de cantar, mesmo sem ter a mínima ideia de como se fazia isso.

Agora já sou e me noto, o que é um alívio, mas às vezes procuro esquecer um pouco essa minha nova condição. Começo a perceber a saborosidade de deixar de ser eu para chamar mais atenção, para que isso possa ser encarado como o apimentado que tira o insosso das coisas, o escabeche que deixa o peixe dando água na boca, conforme ouço por aí. No entanto, apesar de todas essas idas e vindas, prossigo com aquela avidez por continuar prendendo meu oco dentro da mão: elas continuam fechadas e, muitas vezes, vão parar inteiras dentro da boca.


(foto: Maria Teresa Fornaciari)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Gengibre

- Como assim “manga suflê”? 

- “Manga suflê”, ora, um suflezinho diet para o jantar ter um toque a mais, sabe como é.

- Toque a mais com sabor de adoçante?

- É, no suflê vai gengibre, eu adoro gengibre, ele dá uma espécie de frescor e de suavidade ao mesmo tempo.


E você acha que o “manga suflê” dá conta disso tudo?

- Dá, ainda mais se for servido naqueles ramequins vermelhos requintados, sabe como é.

- Não, melhor fazer merengue de morango e pronto. Bem gordo. Gordíssimo. Já perdi o estímulo mesmo. Já deixei pra lá um montão de coisas boas, já emoldurei minhas roupas de ficar em casa e nunca mais apareci descalça, despenteada, desiludida. Rímel escorrido de tanto trabalhar. Se ele quiser, vai ser assim.

- Mas você caprichou tanto, arquitetou todos os passos com todos os detalhes.  Ele já está olhando pra você com aquele jeito de quem ri pra dentro de satisfação, sabe como é.

- Foi o gengibre, não fui eu. Foram os ramequins fumegantes com perfume exótico, não fui eu.  Além disso, ele não vai ligar mais e não vai ter suflê nenhum, nem de manga nem de nada.

...

- Acho que é ele. Quer que eu diga que você saiu, que teve um imprevisto e não chegou ainda, que foi viajar inesperadamente?
 
- Melhor não. Você falou que gengibre fica gostoso no “manga suflê”, né? E onde foram parar os ramequins, os vermelhos, caríssimos? Você procura enquanto eu vou cuidar do rímel que escorreu?

(imagem: http://br.bing.com/images/search)