Cautelosos e bastante envergonhados. No início, não foi fácil deixá-los à vontade. As mãos não obedeciam, o pensamento não cooperava, tudo parecia fora de lugar. De lugar e de tempo. Cinquenta anos ou mais não é momento de começos, de trajetórias cheias de letras inexpressivas, de símbolos sem significado, de signos ocos.Lápis e cadernos cheios de linhas eram ameaçadores e tudo parecia sem nexo, sem elo, sem compaixão. Cada um deles percorreu melhor um atalho que o outro: ela preferia desenhar as letras e o fazia com capricho. Encorpadamente. Ele dava-se melhor com a leitura e saboreava os primeiros passos da identificação dos nomes das coisas. Sonoramente. Um completava o que o outro não sabia bem, mas ela teria que juntar os pedaços das palavras, palavras gordas, curvilíneas; aliás, adorava os contornos, o desenho espirituoso daquele mistério de traçados. Ele teria que domesticar os dedos acostumados a enxadas e a plantações, ao trato cotidiano de bois e de bezerros; adorava ouvir o som das palavras que estavam ali, prontas para serem decodificadas.
Foi uma luta de ano inteiro. Luta briosa de enfrentamentos e de pasmos. A cada página da cartilha, um novo sentido para a vida retirada do fundo do baú, já sem a poeira do desconhecimento.
Neste tempo de Natal, aqueles signos ocos estão preenchidos de luz e de melodias afinadas com uma era de nascimentos. Por isso, a ceia deste ano terá um sabor muito mais aprazível: ele lerá para ela o nome do panetone que comprarão no supermercado e ela fará o pernil seguindo uma receita copiada com sua letra cheia de redondezas. Os filhos virão com os netos e a casa estará enfeitada com os doces saberes de quem teve coragem para principiar, mesmo que aos cinquenta e tantos anos. De A a Z, plenamente.
(Foto: mhtml:mid://00000167/!http://dezmaos.files.wordpress.com/2008/11/mao-escrevendo.jpg)






